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Conteúdo na palma da mão

Raphael Veleda

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O tempo das previsões sobre consumidores hiperconectados, com acesso em tempo real e em qualquer lugar, a todo tipo de conteúdo, acabou. As projeções se tornaram realidade com a rápida explosão do mercado de dispositivos móveis de alto desempenho, como tablets, e-readers e uma enorme gama de smartphones a preços competitivos, mas com capacidade de acessar instantaneamente todo o conteúdo dos principais produtores de mídia do mundo. Uma revolução que está deixando para trás símbolos recentes de modernidade, como os computadores, que amargaram uma queda de 26% nas vendas no mercado brasileiro em 2014, segundo pesquisa da empresa de consultoria digital IDC Brasil, divulgada no início do ano.



“Isso em um ano de baixo desempenho da economia e eleições presidenciais”, ressaltou o analista de mercado da IDC Brasil, Pedro Hagge, quando os números foram divulgados. A venda de tablets, segundo ele, superou a de notebooks graças à sua capacidade de adequação às necessidades dos usuários. “Os aparelhos customizados para o público infantil, por exemplo, vêm ganhando forte espaço no segmento, assim como os modelos desenhados para atender aos projetos de educação e governo.”
“Troquei tudo para o digital. Carregava pelo menos dois livros e três revistas na mochila todos os dias para as aulas. Agora levo um tablet e pronto”, resume o especialista em Gestão Estratégica e Marketing Digital da Fundação Getúlio Vargas, João Rego, o típico consumidor buscado pelas empresas de mídia que têm investido alto na migração do conteúdo impresso para o digital. Não há, hoje, um grande jornal, revista ou editora no país que não disponibilize seu conteúdo via aplicativos para dispositivos móveis, com modelos exclusivos de assinatura.
João Rego ainda não prevê o fim do conteúdo impresso, mas, para ele, a velocidade da transição mostra que a função desse material será diferente. “O próprio hábito de ler mudou. O meio digital amplia o acesso, as pessoas passam a ler mais, mas leem reportagens mais curtas. A dinâmica é diferente, existe a possibilidade de agregar a informação com o conteúdo multimídia, com música, vídeo”, argumenta, destacando os serviços de streaming de vídeo e música, nos quais as pessoas não pagam mais pela unidade, mas assinam um pacote “ilimitado de oportunidades”.
Longe do tom fatalista, Rego usa sua experiência em Marketing Digital para fazer um paralelo com o nascimento da TV. “Todo mundo queria decretar a morte do rádio. Mas são mundos diferentes, o rádio encontrou outro segmento. É algo barato, que você ouve no trânsito, com programas mais informativos, que não precisa de tanta atenção. É inegável que o mercado editorial está passando por uma grande transformação. Os impressos vão encontrar seus espaços. Nem que seja no livro como presente ou souvenir”, ressalta.
O especialista também identifica facilidade na portabilidade do conteúdo. “Você consegue ter todos os livros, revistas e jornais ao seu alcance. Não me arrependo da troca, mas tive que mudar minha forma de ler. É uma questão de hábito, que combina com a agilidade de ter tudo em um único aparelho. E, se eu estiver sem o tablet, posso continuar minha leitura no celular”, emenda.
Para ele, o que vale é a informação. “Claro que tem vantagem em pegar um jornal para ler, você consegue usar todos os dedos para manusear, diferente do celular ou tablet, nos quais geralmente usamos dois ou três. Há ainda a possibilidade de colocar embaixo do braço, de dobrar”.

A transposição do papel
Professor de Novas Mídias da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Fábio Mallin também acredita que o papel terá uma função menor no futuro. “Ele tende a ganhar menos importância na disputa pela audiência com o mercado digital. A concepção de muitos dispositivos transpõe o papel. Então, é inevitável que ele perca espaço dentro do campo digital”, ressalta.
Mallin faz a mesma análise de João Rego, de que o papel não vai acabar, mas reitera a valorização das possibilidades dos dispositivos digitais. “Isso já é uma realidade, há um número de leitores, de usuários de livros digitais, que cresce a cada dia. São muitas possibilidades, com uma acessibilidade mais direcionada. É inevitável pensar que o papel terá cada vez menos espaço”, pontua.

Brasil conectado
O fato é que os brasileiros são ávidos pela tecnologia móvel. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em setembro do ano passado, mais de 50% da população do país está conectada à internet. O levantamento indicou também que três em cada quatro brasileiros têm celular. Em um estudo direcionado ao consumo de mídia, divulgado em 2013, o IBGE mostrou que, na época, mais de oito milhões de pessoas tinham tablets e três em cada dez pessoas, telefone com acesso à internet. A pesquisa indicou ainda um crescimento galopante no acesso à internet, de 130% em 10 anos.

Planalto digital, política on-line
O governo federal já percebeu o protagonismo da tecnologia na vida da população, principalmente das redes sociais. Uma das primeiras medidas tomadas pelo Palácio do Planalto após as manifestações iniciadas em junho de 2013 foi a criação de um gabinete digital. Impressionou o fato de as pessoas terem sido chamadas às ruas por meio de eventos no Facebook.
Na campanha presidencial do ano passado, os três principais candidatos investiram pesado na publicidade na rede e ainda vivenciaram uma guerra entre os eleitores por meio de aplicativos de troca de mensagem, principalmente o WhatsApp. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a dizer em um de seus discursos que era da época em que campanha se fazia com panfleto, e orientou o partido a se modernizar.
Gerente sênior de Governo, Notícias e Inovação social do Twitter, Adam Sharp ressalta que uma das principais mudanças que a tecnologia trouxe para o mundo da informação foi a capacidade de se relacionar diretamente com o autor da mensagem. “É como se você pudesse manter uma conversa com uma pessoa real. Você pode construir uma conexão, humanizar e fazer com que as pessoas se sintam parte do processo”, ressalta. Sharp lembra ainda que, antigamente, se dizia que, por causa da tecnologia, as pessoas não iam mais conversar. “Mas vivemos exatamente o oposto disso. Usamos as redes digitais como uma maneira de conhecer mais gente e melhor”, acrescenta.

A revolução da maçã
Os tablets não surgiram em 2010, quando a Apple lançou o primeiro modelo de iPad, mas foi o revolucionário produto da empresa de Steve Jobs que transformou as tentativas malogradas dos anos anteriores no mercado tecnológico mais promissor da atualidade, impulsionando inclusive ideias que ainda patinavam, como o e-reader Kindle, da Amazon, à venda desde 2007.
Desde então, a rapidez nas vendas e nos lançamentos de novos produtos tem transformado o futuro em história com uma velocidade cada vez maior.

Móvel, rápido, acessível
Apesar do domínio do iPhone, é mais fácil lembrar que não foi a Apple que “inventou” o mercado dos telefones multitarefas e conectados à internet.
Quando a primeira geração do aparelho da maçã foi lançada, em 2007, o mercado, iniciado 15 anos antes, nos EUA, pelo IBM Simon, da empresa BellSouth, já fervilhava.
Ícones como o Motorola StarTAC, lançado em 1996, os Nokia 5110 e 6160, de 1998, e o Razr V3, de 2004, já vinham fazendo história ao ampliar as possibilidades de utilização do telefone móvel.
A recente explosão na velocidade da internet móvel, porém, é o combustível de uma nova revolução do setor.
Após anos de domínio, o iPhone enfrenta hoje a concorrência pesada da linha Galaxy, da Samsung, e de aparelhos potentes, mas com preços muito mais competitivos, como o popular MotoG, da Motorola.

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